Oportunidade do Brasil transformar riqueza geológica em soberania tecnológica
Os minerais críticos tornaram-se uma das bases materiais da economia do século XXI. São insumos indispensáveis a setores cuja interrupção de abastecimento pode comprometer a indústria, a segurança energética e alimentar, a defesa e a autonomia tecnológica. A criticidade não significa necessariamente raridade geológica: resulta da combinação entre importância econômica, oferta concentrada, dependência externa, riscos geopolíticos e gargalos tecnológicos.

Espodumênio em matriz pegmatítica, principal minério de lítio em rocha dura. Imagem ilustrativa gerada por IA.
Essa relevância crescerá. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), instituição ligada à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um automóvel elétrico típico utiliza cerca de seis vezes mais insumos minerais que um veículo convencional e a expansão das tecnologias limpas elevará fortemente a demanda. Ao mesmo tempo, extração e, sobretudo, refino permanecem concentrados em poucos países. Por isso, minerais críticos deixaram de ser apenas uma pauta de mineração: tornaram-se tema de política industrial, comércio exterior, segurança nacional e transição energética.
Potência geológica ainda incompleta
O Brasil reúne diversidade mineral excepcional. O país ocupa posições de destaque nas reservas mundiais de nióbio, terras raras, grafita e níquel e possui ocorrências relevantes de lítio, cobre, manganês, tântalo, urânio, titânio e outros bens estratégicos. Entre os polos conhecidos estão o nióbio de Araxá, o lítio dos pegmatitos do Vale do Jequitinhonha, as terras raras de Minas Gerais e Goiás, a grafita de Minas e da Bahia, além de níquel e cobre em diferentes províncias minerais.
Mas reserva não é sinônimo de riqueza realizada. Em alguns segmentos, como o nióbio e o lítio, já existe produção comercial relevante; em outros, predominam pesquisa geológica, avaliação de recursos, projetos-piloto ou licenciamento. O maior déficit brasileiro situa-se depois da mina: separação, purificação, refino, fabricação de materiais avançados e componentes. Exportar concentrados e importar baterias, ímãs, ligas e equipamentos significa transferir para o exterior a parcela mais valiosa da cadeia.
O novo marco: soberania com agregação de valor
A Lei nº 15.506, sancionada em 16 de setembro de 2026, instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. A mudança é importante porque substitui uma visão restrita à extração por uma política de cadeia completa: pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação, reciclagem — a chamada mineração urbana —, industrialização e inovação.
O marco cria instrumentos de coordenação e financiamento, incentivos à transformação mineral, rastreabilidade e certificação de baixo carbono. Além disso, ele prevê recursos permanentes para pesquisa, desenvolvimento e inovação, articulação com universidades e centros tecnológicos e um fundo garantidor para reduzir riscos dos projetos. O conselho previsto na lei, poderá classificar empreendimentos prioritários e examinar operações sensíveis, como mudanças de controle, cessões de direitos minerários, acesso estrangeiro a informações geológicas estratégicas e acordos internacionais capazes de afetar a segurança econômica ou geopolítica do país.
Trata-se de proteção relevante à soberania, que dentro de um ponto de vista progressista, significa negociar parcerias a partir de prioridades nacionais, exigir contrapartidas tecnológicas e socioambientais, conhecer o subsolo, diversificar compradores e conservar no Brasil uma parcela maior do valor, do conhecimento e dos empregos. A eficácia da lei dependerá da regulamentação, da capacidade técnica do Estado, da previsibilidade regulatória, do licenciamento responsável e da seleção transparente dos projetos.
Tecnologia: do laboratório à escala industrial
O Brasil dispõe de competências científicas importantes, mas ainda desiguais ao longo da cadeia. O Centro de Tecnologia Mineral, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, universidades e institutos de pesquisa, com destaque para grupos em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e outros estados, acumulam conhecimento em hidrometalurgia, pirometalurgia, separação de terras raras, materiais para baterias, reciclagem e aproveitamento de rejeitos.
O gargalo está na travessia entre a boa ciência e a operação contínua em escala comercial. Faltam plantas-piloto e de demonstração, financiamento paciente, encomendas tecnológicas, integração entre mineradoras e fabricantes e formação de equipes multidisciplinares. Algumas rotas são dominadas no país; outras exigem adaptação ao minério brasileiro, aumento de rendimento, redução do consumo de água e reagentes, controle de impurezas e recuperação de coprodutos. O desafio não é apenas inventar processos, mas torná-los competitivos, seguros e ambientalmente verificáveis.
Minas Gerais no centro da nova fronteira mineral
Minas Gerais reúne condições singulares para liderar esse movimento. O estado concentra reservas expressivas de lítio, nióbio, grafita e terras raras. Araxá possui uma cadeia consolidada de nióbio e novos projetos; o Vale do Jequitinhonha tornou-se polo de lítio; e a região de Poços de Caldas abriga projetos avançados de terras raras em argilas iônicas, alguns com plantas-piloto e investimentos industriais anunciados.
A vantagem do Estado não se limita ao subsolo. Há tradição minerometalúrgica, universidades e escolas de engenharia, fornecedores especializados, energia, rodovias e ferrovias conectadas aos portos do sudeste, além de experiência empresarial e institucional. Esse ecossistema reduz riscos, mas ainda requer melhorias logísticas, redes elétricas robustas, água gerida com eficiência, laboratórios compartilhados e áreas industriais preparadas para processamento químico e fabricação de materiais.
Os projetos anunciados em Poços de Caldas e Araxá mostram a escala da oportunidade, com altos investimentos em terras raras e em unidades de processamento. No entanto, o verdadeiro êxito será medido não apenas por toneladas extraídas, mas pela instalação de etapas de separação, refino, produção de ímãs, materiais ativos de baterias, ligas especiais e reciclagem. Para o Jequitinhonha, isso também significa converter a mineração em desenvolvimento regional duradouro, com qualificação profissional, fornecedores locais, infraestrutura pública e diversificação econômica.
Engenharia nacional: preparada, mas ainda não mobilizada
Engenheiros de minas, metalurgistas, químicos, geólogos, ambientais, eletricistas, mecânicos, civis, de materiais, produção e automação serão decisivos em toda a cadeia. Podem ampliar o conhecimento geológico, projetar minas de menor impacto, desenvolver rotas de processamento, automatizar plantas, reduzir emissões, recuperar água, reaproveitar rejeitos, criar sistemas de rastreabilidade e estruturar fábricas de materiais e componentes. Também há espaço para engenharia financeira, gestão de projetos, análise de riscos, propriedade intelectual e avaliação de ciclo de vida.
O benefício profissional pode ser amplo: novos empregos qualificados, empresas de engenharia e equipamentos, startups de base tecnológica, patentes, consultorias, exportação de serviços e participação em cadeias globais. Entretanto, a resposta à pergunta “estamos preparados?” é: parcialmente. O país tem escolas respeitadas, profissionais experientes e centros de excelência, mas precisa aumentar a formação prática em processamento avançado, química de separação, materiais, digitalização, sustentabilidade e gestão de grandes projetos.
A agenda deve combinar atualização curricular, bolsas e laboratórios, intercâmbio entre universidade e indústria, programas de residência tecnológica, plantas demonstrativas e contratação de conteúdo local competitivo — sem protecionismo ineficiente. Conselhos profissionais, associações, empresas e governos podem criar mapas de competências e programas nacionais de certificação e formação continuada. A participação de comunidades e especialistas ambientais desde o início também é condição de legitimidade e de redução de riscos.
A escolha estratégica
O Brasil está diante de uma janela que pode não permanecer aberta indefinidamente. Possuir reservas é uma vantagem; dominar tecnologia e construir indústria é uma decisão. A nova política oferece instrumentos para que o país deixe de ser apenas fornecedor de matéria-prima, mas sua execução terá de combinar soberania, segurança jurídica, ciência, capital, sustentabilidade e inserção internacional.
Minas Gerais pode ser um dos laboratórios dessa transformação. E a engenharia brasileira, se mobilizada com escala e continuidade, pode converter patrimônio geológico em conhecimento, produtividade e bem-estar. O desafio é grande, mas o risco maior seria repetir o passado: retirar riqueza do subsolo sem construir, acima dele, a capacidade tecnológica que definirá a economia do futuro.
Referências: Lei nº 15.506/2026; Decreto nº 13.118/2026; Agência Nacional de Mineração; Serviço Geológico do Brasil; Centro de Tecnologia Mineral; Agência Internacional de Energia; dados públicos e projetos divulgados pelo setor mineral. Texto produzido com o auxílio da IA.