*Por Sérgio Marchetti
A história que vou contar é a de uma família do passado. Perdoem-me, caros leitores, mas hoje estou triste e lamentando profundamente algumas mortes.
Citá-las todas não caberia nesta página.
Não. Não vou falar das guerras, das tiranias, das mortes por bronquiolite, dengue e nem de outras doenças, por falta da vacina, de responsabilidade e de humanidade.
Estou triste sim, por saber que a dona Gentileza está fazendo falta.
Vocês, leitores maduros, se lembram quando viajávamos de avião e dona Gentileza nos atendia nos aeroportos? Ela nos cumprimentava com um sorriso sincero, fazia nosso check in, agradecia por sermos clientes e nos desejava uma ótima viagem. Na aeronave, as comissárias (quando ainda eram aeromoças), encaminhavam os passageiros aos seus lugares, sorrindo e demonstrando carinho pelas crianças e idosos. Não! Isso não tem 100 anos. Dona Delicadeza, irmã de dona Gentileza, ainda estava viva. Há três décadas ainda estava trabalhando. Ambas eram simpáticas e educadas. Que saudade!
A família era grande. Eu adorava as ocasiões em que podia vê-las juntas. Tinham irmãos também. Mas todos já faleceram.
Nos restaurantes, o atendimento era feito por elas. Dona Gentileza nos recebia. Dona Paciência, prima de primeiro grau, anotava os pedidos e sugeria calmamente os melhores pratos. As duas morreram praticamente juntas. Fazem falta. Estavam tristes, deprimidas, após a morte do irmão – senhor Respeito. Ele foi assassinado por uma facção, comandada pela dona Intolerância, dita moderna e que achava que o senhor Respeito atrapalhava o progresso do mundo.
De fato, era exigente, sério e não permitia que as boas regras fossem quebradas. Falar palavrão perto dele era uma afronta. E as mulheres, então, eram preservadas de ouvirem palavras de baixo calão. Chegou a ficar enfermo devido à epidemia de pornografia, palavrões, peças teatrais e filmes horrendos.
Mesmo doente, gritava contra o rumo das coisas e da disrupção dos padrões.
Em seus delírios, um pouco antes de ser assassinado, dizia que a mãe, dona Honestidade, também morta por alguns malfeitores, aparecia para ele, sempre chorando.
Família grande, meus fervorosos leitores, eles fizeram história.
Quando morreu o senhor Respeito, tudo desandou. E foi o que aconteceu com aquela família. Antes dele, a mãe, senhora Honestidade, por ser íntegra, era chamada de idiota. Ficou louca. Não suportou ver tanta incoerência, conivência social, descaso e impunidade.
Quanto mais falava e demonstrava atos ilícitos dos poderosos, mais inimigos fazia. Foi internada em Barbacena. Nunca se recuperou. Repetia pelos corredores do hospício: cego é quem não quer ver. Mas corrupto é quem vê e aprova os atos ilícitos.
Foi exterminada.
Constato com tristeza, e aos poucos, que os guardiões da sociedade estão partindo. Família é como um cacho de bananas. Quando a primeira fruta despenca, é um sinal de que as outras não tardam a se soltarem.
Na família de dona Honestidade não foi diferente.
Mas tudo começou quando a matriarca da família faleceu. Era a irmã gêmea de dona Honestidade. Porém, era quem decidia os caminhos da família. Chamava-se dona Justiça. Foi assaltada, desconsiderada e morreu totalmente debilitada – depois de sofrer maus-tratos de seus cuidadores. Dona Honestidade, na ocasião, ficou totalmente abalada com a morte da irmã e, mesmo buscando apoio de terceiros, a família se desestruturou totalmente.
Um primo distante, o senhor Bom Senso, procurava mostrar, com fatos, o que não estava certo, mas era rejeitado, assim como a dona Justiça havia sido.
Em reunião de família, a prima, senhora Verdade, e demais parentes, como o senhor Bom Senso, não podiam abrir a boca. A senhora Verdade era repelida e agredida verbalmente. Senhor Bom Senso era derrotado.
Enfim, derrota de uns, vitória de outros – lei do esporte aplicada erroneamente à vida.
E nesse jogo, a vizinha, senhora Mentira, que adora um ambiente sujo para se proliferar, passou a ser a protagonista da peça teatral desastrosa, em cartaz há anos na terra de Cabral.
Dona Mentira, mora com a irmã, dona Hipocrisia e, juntas, enganam os incautos e fazem seguidores.
Enfim, o que nos consola e nos faz acreditar numa vida digna é uma velhinha simpática chamada dona Esperança que diz que não há mal que sempre dure e nem bem que nunca se acabe (o bem já se acabou). Também nos lembrou de uma reflexão atribuída a Abraham Lincoln (alguns dizem que é de Bertolt Brecht): “você pode enganar a uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar a todos por todo o tempo”.
Enquanto isso, em algum lugar do passado, repousa solitária e totalmente esquecida a bisavó da família, Dona Ética.
Rezemos por ela.
* Sérgio Marchetti é consultor organizacional, palestrante e Educador. International Certification ISOR em Holomentoring, Coaching & Advice (coaching pessoal, carreira, oratória e mentoria). Atuou como Professor de pós-graduação e MBA em instituições como Fundação Getúlio Vargas, Fundação Dom Cabral, Rehagro e Fatec Comércio, entre outras. É pós-graduado em Administração de Recursos Humanos e em Educação Tecnológica. Trinta anos de experiência em trabalhos realizados no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br