NOTÍCIAS DA ENGENHARIA

Sem engenharia não há desenvolvimento e sem desenvolvimento não há engenharia!

Por José Seniuk*

Não, não é um texto ideológico se é que podemos chamar a busca por ações para o desenvolvimento do Brasil como não ideológico. Falo isso pois o título deste artigo é uma paráfrase da célebre frase escrita por Karl Marx e Friedrich Engels no final do Manifesto Comunista de 1848. A tradução literal é “Proletários de todos os países, uni-vos!”, frequentemente adaptada para “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. 

A engenharia recebe do Brasil todo impacto de sua cultura, economia, população, política, história, território, ou seja está altamente entrelaçada como o presente , o passado e o futuro do país ao qual está umbilicalmente conectada e portanto certamente com mesmo destino.

O Brasil não é parecido com nenhum dos países do mundo desenvolvido nem dos emergentes para fazermos uma ‘reengenharia’ do seu processo de desenvolvimento para aplicarmos aqui. Certamente o fato de não ter havido aqui um revolução burguesa, que lutou pela soberania de seus  países de origem,  em contrapartida ao sistema feudal, aos moldes do que aconteceu nos países desenvolvido,s pode ser um entrave. Mas agora já é  passado, e como Engenheiros devemos  buscar o que pode ser feito daqui para frente, pois o futuro de nosso país não existirá sem algo que integre todas, ou pelo menos a maioria de suas classes sociais na mesma direção.

Dito isto, considerando as especificidades do território nacional e sua ocupação populacional, entendo que quatro processos permanentes são indispensáveis para o desenvolvimento do país e desta forma trazer a engenharia para o seu lugar de relevância na política nacional. Política dita aqui como processo decisório que coloque em prática  planejamento, projeto, implantação, operação e o controle de ações que construa, opere e mantenha fases permanentes e simultâneas dos processos de   Inclusão social, Distribuição de Renda, Democracia e Soberania para construção de uma sociedade civilizada. Ou seja, um desenvolvimento civilizatório.

Estas fases deste processo permanente ocorrem simultaneamente, de forma recorrente e não coincidente, desde a origem da humanidade, que podemos constatar se  observarmos na atualidade em  sociedades  ou culturas atuais, coletivamente ou através de seus  indivíduos:  costumes da idade da pedra, da idade média, da renascença e da idade contemporânea, etc. Tenho uma tese que entendo que uma sociedade está dividida em coroas circulares concêntricas em que do centro para a periferia temos a distância da sociedade moderna e tecnológica para a idade média ou mesmo a idade pré-histórica. Sendo que a distância a que me refiro é presença ou falta do atendimento das quatro fases que chamei de desenvolvimento civilizatório ou ambiente civilizatório.    

Ora, com a engenharia como atividade humana que transforma ciências em tecnologias, temos a possibilidade aos nossos pés de atuar em todas áreas do conhecimento humano. E se conseguirmos trabalhar de forma sistêmica, com respeito à natureza, o futuro pode ser alvissareiro. 

A inclusão social começa no nascimento e alimentação do futuro cidadão, de preferência fruto de um casal que passou por processo análogo. Deve-se lembrar que, na falta de alimentação adequada até os três anos, o cérebro será afetado para sempre. A inclusão social vai até o ponto em que todas as pessoas, independentemente de raça, gênero, orientação sexual, classe social ou deficiência, tenham igualdade real de oportunidades e acesso a direitos básicos. Portanto, uma infraestrutura de saúde, educação, mercado de trabalho e segurança, que deve estar a disposição como direitos básicos.

distribuição renda deve ser, aqui mais uma vez sem arroubo ideológico, uma necessidade dos capitalistas e socialistas. Os primeiros porque a lei da oferta e procura e velocidade de circulação do dinheiro   é uma alavanca da economia e gera demandas à procura de ofertas, circulação rápida da moeda que podem abastecer o cardápio das engenharias para investimentos produtivos e de longo prazo em todos os setores da sociedade.

Por outro lado, para os socialistas, se tivermos cada cidadão produzindo o que for capaz  e recebendo o que lhe é necessário, as chances  de equilíbrio social serão mais fáceis de atingir. É claro, com a diversidade de pessoas em vários estágios de desenvolvimento pessoal na sociedade, a regulação no mercado se torna obrigatória, afinal temos ora o homem real diante do meio ambiente ideal (O homem lobo do homem de Hobbes) e ora o homem ideal no meio ambiente real (“o homem que nasce e é corrompido pela sociedade” – Rousseau), situações estas que precisam ser reguladas tanto no Brasil como na China. 

A concentração de renda estaciona a economia, promove a circulação lenta da moeda com aplicações rentistas, e gera ao contrário ofertas em busca  de demandas como uma economia planificada às avessas, mais sujeita a influência de monopólios e oligopólios e planejamento de curto prazo, uma espécie de ditadura da mão invisível.

A democracia como regime político  é um ponto de chegada de um processo permanente de construção, cuja efetividade estará acontecendo com cidadãos incluídos socialmente com emprego na esteira das  fases anteriores, e com acesso a trabalho e renda . O   voto consciente e independente passa a favorecer uma representação política mais representativa e legítima em todos os setores da sociedade. 

Finalmente, a Soberania agrega todos os valores consolidados pelas fases anteriores, onde a integridade de cada cidadão um gera   coletivamente a integridade da nação com  independência política e institucional; autonomia econômica e cultural com reconhecimento internacional através de seus eleitos; e com competência e seriedade nas  negociações de capacidades e necessidades internas, com demais países do mundo.   

A mensagem que deixo neste texto é que o Brasil com seus recursos naturais, amálgama do meio ambiente e seu povo, pode funcionar como um grande empreendimento onde cada ação tenha dois olhares: Um  para o retorno do investimento público que o cidadão brasileiro assim aloca através dos impostos arrecadados. E o outro para que haja equilíbrio para toda sociedade nas dimensões econômica e social com políticas públicas permanentes nos processos de inclusão social, distribuição de renda, democracia e soberania. Nesta condição o teto de gasto do país deverá ser definido pelo retorno (aqui entendido como econômico e social ) dos investimentos   públicos e, portanto, com apoio da engenharia nacional. 

Portanto, engenheiros uni-vos em um empreendimento chamado Brasil com trabalho e  respeito ao meio ambiente, lembrando Pero Vaz de Caminha em 1500, As águas são muitas, infinitas. Esta terra é de tal maneira graciosa que, querendo-a explorar, dar-se-á nela tudo em virtude das águas que tem”. Além das águas temos, terras e multiculturalidade raras.

Outono de 2026


*Jose Francisco Vieira de Seniuk é engenheiro e diretor do Senge-MG.

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