Mesmo com reservatórios de água em situação crítica, governo mineiro só pensa em vender a Copasa e não exigiu que a Vale reconstruísse captação de água do Rio Paraopeba, o qual foi destruído pelo desastre de Brumadinho.
Os mineiros receberam, no último dia 23/12, um presente “de grego” do governo mineiro: a sanção da Lei 25.664, que autoriza a privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). A nova lei se originou do PL 4.380/25, de autoria do governador Romeu Zema, que tramitou na ALMG em meio a forte obstrução de deputados de oposição ao Executivo e protestos dos trabalhadores da estatal, com apoio dos movimentos sindical e social.
Para dar contornos definitivos ao arranjo privatista, Copasa e a Prefeitura de Belo Horizonte estão prestes a sacramentar a renovação da prestação dos serviços de tratamento de esgoto e distribuição hídrica à cidade, que prevê a extensão do contrato, que venceria em 2032, até 2073.
Com a jóia da coroa garantida antes da privatização, a venda da Copasa é apenas questão de tempo. O mercado já dá isso como certo, conforme sinaliza relatório do Itaú BBA divulgado a investidores, que prevê para abril o leilão, para deleite do governador Romeu Zema. No documento, o Itaú BBA aponta a existência de “marcos políticos que abrem caminho para a privatização até abril”.
Reservatórios em níveis críticos
Só que no meio do caminho tem reservatórios em situação crítica, o que tem elevado a possibilidade de racionamento de forma universalizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) ainda em 2026.
Nesta quarta-feira, 21/01, o Portal da Copasa demonstrava a criticidade do armazenamento nos reservatórios do Sistema Paraopeba, com 48,1% da capacidade, um dos piores da série histórica iniciada em janeiro/2018, responsável pelo atendimento de 60% da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). E olha que São Pedro tem sido generoso nesses últimos dias.
Vale lembrar que, para evitar o racionamento de água e garantir a regularidade do abastecimento de água aos cerca de quatro milhões de habitantes da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) a Copasa colocou em operação, em dezembro de 2015, a captação de água do Rio Paraopeba, em Brumadinho.
Com investimentos de R$ 128,4 milhões aportados pelo Governo de Minas Gerais, a Companhia executou as obras em tempo recorde (seis meses e 20 dias), passando a captar, a fio d’água, até 5.000 litros de água bruta por segundo no manancial.
A obra de captação permitiu que fossem poupados, segundo a Abes-MG até 2017, 175 bilhões de litros de água dos reservatórios do Rio Manso, Serra Azul e Várzea das Flores, volume superior ao total de água acumulada nos três reservatórios em 20 de dezembro de 2015 (data de inauguração da captação do Paraopeba), que era 61,9 bilhões de litros de água. Ou seja, em funcionamento, a captação possibilitava a redução da retirada de água dos reservatórios, permitindo a recuperação dos seus volumes armazenados.
Efeito desastre de Brumadinho
Só que tudo mudou em janeiro de 2019, com o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, que contaminou o Rio Paraopeba, interrompendo a captação da Copasa e fazendo voltar a possibilidade de uma crise hídrica, com risco de desabastecimento para a RMBH.
Em acordo (TAC Água), a Vale foi obrigada a construir um novo sistema de captação para compensar os danos e viabilizar o abastecimento futuro. Só que obra da nova captação sofre com sucessivos atrasos, com cronogramas não cumpridos e cobranças do Ministério Público e da Assembleia Legislativa de MG.
Em dezembro de 2025, seis anos depois da inviabilização da obra de quase R$130 milhões que garantiam a manutenção dos reservatórios do Sistema Paraopeba em condições para manter a segurança hídrica de 60% da população da RMBH, relatório da Reparação Brumadinho | Projetos de Segurança Hídrica – Anexo II.3 mostrava que a obra ainda não está concluída.
Ou seja, os riscos de racionamento e de desabastecimento são de inteira responsabilidade de Romeu Zema e seus subordinados que só tinham no horizonte vender a Copasa.
A luta continua
Com base nessas informações e diante do risco real de desabastecimento, o deputado estadual Professor Cleiton (PV), saiu a campo mesmo no recesso parlamentar e está cobrando a conclusão de obras de captação no Rio Paraopeba (TAC da Vale), denunciando o imobilismo do Governo Zema, responsável direto pelo cumprimento do TAC da Vale. O que não fez, mesmo diante da situação crítica dos reservatórios e a captação reduzida em fio d’água no Rio das Velhas.
O Senge-MG, que tem acompanhado o processo de venda e da falta de investimentos para integrar sistemas, observa que racionamentos seletivos, basicamente em comunidades de renda e, tudo indica sem atrativo financeiro para a ainda estatal, vem ocorrendo sistematicamente, conforme pode ser checado na mídia.
Será uma espécie de ensaio e laboratório para mostrar para os futuros compradores que é possível contornar a escassez hídrica sem perda financeira? O tempo dirá.