A construção de um país soberano está nas mãos da sociedade brasileira
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A necessidade de a engenharia retomar o seu protagonismo na construção do desenvolvimento do país – soberano, independente e livre das amarras do neocolonialismo – e a importância das eleições para o futuro dessa construção foram as principais conclusões do debate realizado na segunda-feira, 21 de setembro, como parte da programação das celebrações dos 80 anos do Sindicato de Engenheiros no Estado de Minas Gerais, Senge-MG. Coordenado pelo engenheiro Marco Túlio de Melo, presidente da Federação de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge), o evento teve como debatedores os engenheiros Márcio Girão e Miguel Manso.
Após a mensagem de boas-vindas do presidente do Senge-MG, Murilo Valadares, Marco Túlio iniciou os trabalhos dizendo da sua satisfação “em estar na coordenação de um debate extremamente importante para as nossas realidades atuais, principalmente no ano eleitoral em que vamos estar com candidatos à presidência da república, governador, senador, deputados federais e deputados estaduais, buscando uma alternativa de futuro para o desenvolvimento brasileiro”. Em seguida, apresentou os dois debatedores convidados, os engenheiros Márcio Girão e Miguel Manso, ambos defensores de uma política industrial desenvolvimentista para o país.
Márcio Girão, ex-presidente do Clube de Engenharia do Brasil e ex-diretor da Finep, iniciou a sua apresentação falando da perda de protagonismo da engenharia desde os governos Fernando Henrique e da queda da participação da indústria no PIB do país, hoje em torno de 13%. Girão traçou um minucioso quadro desse declínio que teve como causas o processo de privatização desenfreado sem salvaguardas para o conteúdo local, redução de tarifas sem preparação da indústria, interrupção de encomendas tecnológicas, contingenciamento de fundos de ciência e inovação e retração dos investimentos em infraestrutura que enfraqueceram empresas nacionais de engenharia e centros de pesquisa.
A soberania é apresentada por Girão, não como discurso abstrato, mas como a capacidade efetiva de escolher caminhos, competir, dizer “não” quando necessário e executar projetos estratégicos com recursos humanos e tecnológicos próprios. Para ele, um país dependente de equipamentos, projetos, plataformas e decisões produzidas no exterior permanece vulnerável, ainda que possua território, riquezas naturais e instituições formais. “A dependência também se alimenta da ideia de que a tecnologia deve ser simplesmente comprada e de que as soluções estrangeiras são inevitavelmente superiores”, apontou.
Segundo Márcio Girão, o desenvolvimento menos dependente é condição de soberania e, para alcançá-lo, o Brasil precisa recuperar a engenharia como protagonista, reconstruir sua indústria, coordenar ciência e produção, formar profissionais qualificados e manter políticas de Estado que atravessem governos. “Olhar para dentro não significa isolamento: significa participar do mundo com autonomia, identidade e poder de decisão, apoiado em uma engenharia capaz de transformar conhecimento em bem-estar, defesa, infraestrutura e desenvolvimento duradouro”, concluiu.
Miguel Manso, diretor do movimento Engenharia pela Democracia e participante da equipe de preparação do programa do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, concorda com Márcio Girão ao identificar que, nas últimas décadas — desde o governo Fernando Henrique —, houve um declínio do papel da engenharia no Brasil. “Não da capacidade dos engenheiros ou da engenharia, mas de seu protagonismo na formulação de políticas e no desenvolvimento das empresas, do setor e de todo o complexo industrial, no qual a engenharia tem grande participação”.
Sobre a sua participação na elaboração do programa de governo de Lula, Miguel Manso afirmou que a equipe está em uma empreitada para criar as condições políticas que permitam dar continuidade ao processo de retomada e reconstrução do desenvolvimento nacional, da democracia e da soberania. Para ele, a grande missão dos brasileiros hoje é superar a fase do negacionismo e dos retrocessos que vivemos. “Esses retrocessos não acontecem por acaso. O Brasil tem dois séculos de luta por sua independência e soberania. Na verdade, estamos o tempo todo tentando colocar de pé um projeto de nação: ora enfrentando o colonialismo português, depois o colonialismo inglês e, agora, o grande irmão do Norte, o império norte-americano”.
O palestrante atribui aos engenheiros uma responsabilidade histórica diferenciada: ajudar o Brasil a transformar seu potencial científico e seus recursos naturais em capacidade tecnológica, industrial e decisória. Segundo Miguel Manso, diante de interferências externas e da disputa por ativos estratégicos na América do Sul, a soberania não pode permanecer como princípio abstrato; precisa materializar-se em infraestrutura, indústria, energia, defesa, patentes, empresas nacionais e instituições públicas tecnicamente qualificadas. “A engenharia brasileira possui competência e tradição, mas deve reorganizar-se, disputar prioridades públicas e assumir, com perseverança, seu papel na construção de um país soberano, produtivo e socialmente justo”, conclui.
Marco Túlio conclamou a todos a colocar este debate para toda a categoria, com o protagonismo que a engenharia deve ter no processo do desenvolvimento e, consequentemente, na política brasileira. Sobre os dois projetos em disputa neste país, Marcos Túlio disse esperar que não tenha ficado nenhuma dúvida: “Nós temos lado, temos o lado do Brasil, nós temos o lado da sociedade brasileira. Nós somos do lado da soberania e da democracia, então é importante que esteja claro e eu pediria a todos que se mobilizem, porque não será uma eleição fácil, como todos nós sabemos. Está extremamente polarizada. E se nós queremos ter a perspectiva de futuro, nós temos que nos engajar de fato nesse processo”.
Após a abertura para os debates, o presidente do Senge-MG, Murilo Valadares, encerrou a reunião, agradecendo os palestrantes e exaltando a importância desses eventos. Para ele, os debates que vão ocorrer ao longo das celebrações dos 80 anos do Sindicato serão de suma importância para “abrir a cabeça, inclusive a nossa, para que a engenharia possa ter alguma voz no estado e no governo federal”. Valadares está preocupado com o momento do país: “Se a gente perder, vai ser um atraso. Se a gente ganhar, nós temos que ser mais agressivos. Podemos ir lá em Brasília manifestar, sim! Nós vamos lá manifestar, na porta do palácio, queremos ser recebidos. Queremos discutir engenharia, retomar o nosso protagonismo”, concluiu.
(O conteúdo completo deste debate pode ser visto no YouTube @TVSenge)
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