Mil seiscentos e quarenta e seis dias depois, a Câmara Municipal de Belo Horizonte corrigiu um dos seus maiores erros. Fruto do desejo pessoal do então presidente do Legislativo municipal, Gabriel Azevedo, com a leniência do prefeito Alexandre Kalil, os parlamentares aprovaram, em reunião extraordinária realizada na manhã de segunda-feira (27/9/2021), o Projeto de Lei 160/2021, que extinguia a BHTrans e criava a Superintendência de Mobilidade Urbana (Sumob). O texto original contou com 30 votos favoráveis e 9 contrários; eram necessários 28 votos para sua aprovação.
Também em reunião extraordinária, na manhã de segunda-feira (30/3/2026), o plenário da Câmara aprovou, em 1º turno, o Projeto de Lei (PL) 616/2025, de autoria do Executivo, que propõe a reorganização administrativa de áreas como mobilidade urbana, meio ambiente e relações internacionais, além de pôr fim à extinção da BHTrans. O PL teve 34 votos favoráveis e 5 contrários.
Em peso nas galerias do plenário, trabalhadoras e trabalhadores da BHTrans tiveram seu esforço de luta reconhecido por vereadoras e vereadores — alguns deles contrários a pontos do PL, mas favoráveis ao trecho que tratava da empresa. Uma unanimidade que confirma, como exceção, a célebre frase do dramaturgo Nelson Rodrigues de que “toda unanimidade é burra”.
O Sindicato de Engenheiros no Estado de Minas Gerais, que lutou em 2021 contra a extinção ao lado das trabalhadoras e dos trabalhadores e, desde então, não parou um minuto sequer de denunciar o descalabro — inclusive na imprensa, que contribuiu para transformar a BHTrans no grande vilão da mobilidade da cidade —, agora espera que o Executivo municipal, com o aprendizado, volte a valorizar a empresa e seu corpo técnico altamente qualificado, recolocando Belo Horizonte no mapa das boas soluções de mobilidade e transporte público no país.
Quis o destino que a imprensa comercial de Belo Horizonte, que endossou a extinção em 2021, não tenha dado nenhum — ou quase nenhum — destaque à aprovação da reversão, ocorrida na manhã de segunda-feira, 30/3. Por outro lado, prestou justa homenagem a Eveline Trevisan, arquiteta e urbanista da BHTrans, que nos deixou poucas horas antes da aprovação do projeto. Ela, no espírito mais puro da BHTrans, sabia que não há como fazer urbanismo “se não for com as pessoas completamente dentro do processo”.
Suas “ruas de estar”, construídas com a participação ativa da sociedade civil, vieram para ficar. Que esse espírito ilumine a todos e todas — e que novas aventuras, como a extinção da BHTrans, sejam erros jamais repetidos.